Sida alastra entre homossexuais de Lisboa

Published: November 30, 2010

Sida alastra entre homossexuais de Lisboa
(TimeOut Lisboa)

Assinala-se esta quarta-feira o Dia Mundial da Luta Contra a Sida, mas os especialistas dizem que a infecção está numa fase devastadora. Já se fala em “grupos de risco”, escreve Bruno Horta.

Os dados têm chegado ao conhecimento público de forma discreta e revelam uma realidade chocante: há cada vez mais homossexuais com sida na Europa Ocidental e nos EUA. Portugal não é excepção. Médicos que trabalham em hospitais públicos de Lisboa garantem mesmo que há um aumento rápido do número de infecções entre homossexuais, sobretudo jovens.

O relatório sobre o estado da epidemia publicado há um ano pela ONU (“2009 AIDS Epidemic Update”) apontava “o sexo entre homens” como “o modo de transmissão mais frequente nos países da América do Norte e da União Europeia” e afirmava que “é já claro um ressurgimento da epidemia” neste grupo. O relatório de 2010 (“UNAIDS Report on the Global Aids Epidemic”), divulgado há uma semana, confirma a tendência e concretiza: “Dados de 23 países europeus mostram um aumento de 86% de infecções entre homens que têm sexo com homens de 2000 a 2006.”

Já durante este Verão, na Conferência Internacional sobre Sida, que decorreu na Áustria, médicos da organização não-governamental americana Global Forum on MSM and HIV (MSMGF) disseram em conferência de imprensa que estamos a atravessar “a pior crise de sida no mundo entre homens que têm sexo com homens”.

Até agora, porém, o VIH/sida continua a ser visto em Portugal como um problema dos utilizadores de drogas injectáveis e dos trabalhadores do sexo, o que se baseia em dados que se sabe estarem desactualizados.

Contactado pela Time Out, o psicólogo clínico George Ayala, do MSMGF, explica que “nos países pobres, os homens que têm sexo com homens têm uma probabilidade de contrair o VIH 19 vezes superior à do resto da população; nos países ricos, essa probabilidade é 40 vezes superior.”

Homens que têm sexo com homens (HSH) é a expressão usual entre epidemiologistas para designar homo e bissexuais. “Nem todos os homens que têm sexo com outros homens se autodenominam homossexuais. Alguns, por vários motivos, consideram-se hetero ou bissexuais, não falam com ninguém sobre os contactos que têm com outros homens e em simultâneo mantêm relações heterossexuais”, explicou recentemente à Time Out Lisboa o psicólogo clínico Alex Carballo-Diéguez, do HIV Center for Clinical and Behavioral Studies, de Nova Iorque.

No caso de Lisboa, faltam números oficiais, mas três médicos dos hospitais Egas Moniz e Santa Maria (que preferiram não ser identificados) dizem que o contacto diário com doentes lhes permite atestar que há cada vez mais homossexuais com sida e outras infecções sexualmente transmissíveis, sobretudo jovens. “Mais de 70% dos pacientes das consultas de venereologia são homossexuais”, afirma um dos médicos, acrescentando que nesta especialidade a orientação sexual é perguntada aos doentes por ser considerada relevante do ponto de vista clínico. As mesmas fontes dizem que, segundo uma observação empírica, “95% das pessoas que vão às consultas de dermatologia especial são homossexuais seropositivos” – e recorrem a esta especialidade já durante a fase terapêutica.

Estes médicos consideram que “é correcto dizer que a tendência está novamente a inverter-se”. “Depois do boom da sida entre gays nos anos 80 e da redução nos anos 90, há cada vez mais homossexuais infectados, sobretudo jovens entre os 16 e os 20 anos. A ingenuidade das novas gerações, que não viveram a pior fase da sida, e um maior facilitismo nas práticas sexuais são explicações possíveis.”

Sintomaticamente, o termo “grupo de risco” voltou a ser aplicado aos HSH. Tinha caído em desuso nos anos 90, por ser considerado estigmatizante para as vítimas da doença, e deu lugar à expressão “comportamentos de risco”. No entanto, um documento ratificado pelo presidente americano Barack Obama, e divulgado em Julho, o “National HIV/Aids Strategy for the US”, afirma que os “homens brancos que têm sexo com homens brancos são um grupo de risco”. “Qualquer pessoa pode ser infectada pelo VIH, mas alguns americanos correm maiores riscos do que outros”, lê-se. À cabeça são referidos “gays e bissexuais”.

Interrogado sobre se a sida voltou a ser uma doença predominantemente de homossexuais, George Ayala responde que “não é correcto dizer isso”. “O mais adequado é dizer que os gays e outros HSH são e sempre foram desproporcionalmente mais afectados. O mesmo acontece com trabalhadores do sexo, pessoas transgénero, toxicodependentes, mulheres e migrantes.” A única coisa em comum entre estes grupos, segundo Ayala, “é a marginalização social de que são vítimas”.

De acordo com os relatórios da ONU, o ressurgimento da epidemia entre HSH deve-se sobretudo “a um aumento dos comportamentos sexuais de risco”. Dados do relatório de 2010 revelam que apenas 43% dos homens portugueses usaram preservativo na última relação sexual anal com outro homem.

Um dos médicos ouvidos pela Time Out acrescenta outra explicação: “O diagnóstico da sida é cada vez mais precoce e os fármacos permitem hoje que as pessoas vivam muitos anos, o que é uma vantagem e ao mesmo tempo faz com que haja mais pessoas durante mais tempo com capacidade de contágio. A pessoa medicada tem cargas virais muito baixas, mas pode transmitir o vírus.”

Homo e bissexuais constituem mais de 26% do total de casos de sida no nosso país, dizem os dados da Coordenação Nacional para a Infecção VIH/sida (antiga Comissão Nacional de Luta Contra a Sida). Entre 2005 e 2009, a prevalência da doença diminuiu abruptamente entre utilizadores de drogas injectáveis e de forma lenta entre heterossexuais.

terça-feira, 30 de Novembro de 2010

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